
Reeleição com 53,19% dá ao governador capital político para avançar, mas segurança, saúde e educação integral colocam sua capacidade de execução sob teste. Foto: Divulgação
Redação – Agência Caririceara.com
Elmano de Freitas (PT) ganhou mais quatro anos no comando do Ceará. A reeleição, com 53,19% dos votos, encerra a disputa eleitoral, mas abre uma etapa mais difícil para o governador: transformar a força política conquistada nas urnas em resultados capazes de sustentar seu segundo mandato.
O novo ciclo, de 1º de janeiro de 2027 a 31 de dezembro de 2030, começa com uma agenda extensa e uma cobrança concentrada em áreas sensíveis. Segurança pública, saúde e educação aparecem no centro das promessas, enquanto a relação com o governo federal poderá determinar parte da capacidade de investimento e execução da administração.
O próprio Elmano estabeleceu a régua pela qual pretende ser cobrado. Na noite da vitória, apontou o enfrentamento às organizações criminosas como o principal desafio do novo governo e colocou ao lado dele a redução das filas de cirurgias e a universalização da educação em tempo integral.
“Não tenho nenhuma dúvida que o grande desafio do Ceará, e isso o povo nos apresentou nas ruas, é o desafio do enfrentamento das organizações criminosas. Esse é o principal desafio do meu governo.”
A declaração tem peso político porque a segurança foi justamente o terreno em que a gestão mais sofreu desgaste durante a campanha.
Segurança: a promessa que pode virar a principal medida do governo
A violência dominou a eleição cearense. Nas pesquisas Quaest contratadas pela TV Verdes Mares, 54% dos eleitores apontaram a segurança pública como sua maior preocupação.
A oposição explorou o tema como principal ponto de fragilidade da administração Elmano. O governador respondeu apresentando a redução recente dos índices de violência como resultado de sua gestão e prometendo uma nova rodada de investimentos.
Entre as propostas estão a contratação de 6.000 policiais, a construção de presídios e um novo modelo de enfrentamento às organizações criminosas nas comunidades.
O problema para o segundo mandato é que a queda de determinados indicadores não encerra, por si só, a percepção de insegurança. É justamente nesse intervalo entre estatística e experiência cotidiana que estará parte da disputa política de Elmano nos próximos quatro anos.
Para o cientista político Cleyton Monte, a nova administração terá de rever sua estratégia.
“No segundo governo, o governador Elmano de Freitas terá que reposicionar, reforçar, rever estratégias na área da segurança pública, melhorar a comunicação dessas informações, articular integração.”
A avaliação de Mariana Dionísio, doutora em Ciência Política pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), acrescenta outra dimensão ao resultado eleitoral. Para ela, a reeleição não representa uma aprovação direta da política de segurança.
“O voto é multicausal, então não é possível vincular a vitória de Elmano somente ao tema da segurança pública, inclusive porque esse é um dos indicadores mais mal avaliados de sua gestão.”
A pesquisadora também aponta a necessidade de valorizar as forças policiais, com melhores salários, carreira e condições de trabalho.
“A nova gestão precisará provar que a melhora na segurança é real, porque o risco político não está em não ter feito nada, mas em a entrega ficar abaixo do que foi prometido.”
É aí que está o risco para o segundo mandato: não basta anunciar mais investimento; será preciso produzir uma sensação de segurança compatível com a promessa feita nas urnas.
Saúde: menos promessa, mais fila para enfrentar
Na saúde, o desafio tem uma medida particularmente concreta: o tempo que o cidadão espera por uma cirurgia.
Elmano colocou a redução das filas entre as prioridades do novo mandato e prometeu avançar na expansão da estrutura hospitalar no interior.
A lista de obras inclui a conclusão dos hospitais regionais de Crateús, Baturité e Iguatu. O governador também pretende iniciar os projetos anunciados na campanha: o Hospital Metropolitano, em Caucaia; uma unidade na Serra da Ibiapaba; e o Hospital do Idoso, cuja localização não foi informada.
A interiorização da saúde é uma das principais apostas para o próximo ciclo. Mas construir unidades é apenas parte da equação. O resultado político dependerá da capacidade de colocá-las em funcionamento, garantir profissionais e ampliar efetivamente a oferta de atendimento.
Na prática, a fila será uma das principais medidas de desempenho.
Educação terá de sair da vitrine e chegar à universalização
Na educação, o desafio é igualmente ambicioso.
Elmano prometeu concluir todas as escolas de tempo integral que estão em construção e iniciar o processo de transformação dessas unidades em escolas profissionalizantes.
A meta final é universalizar o ensino em tempo integral, da creche ao fim do ensino médio.
A educação foi apresentada pela campanha como uma das vitrines do governo, ao lado da geração de empregos. No segundo mandato, porém, o discurso terá de enfrentar uma exigência diferente: escala.
Universalizar significa fazer com que uma política apresentada como marca administrativa deixe de ser apenas uma vitrine e passe a alcançar toda a rede.
O fator Lula pode ampliar — ou limitar — o espaço de Elmano
Há ainda uma variável que escapa parcialmente ao Palácio da Abolição: a relação com Brasília.
Elmano construiu sua campanha sobre a proximidade com Lula (PT). O presidente apareceu de forma recorrente em seu material eleitoral, e a parceria com o governo federal foi apresentada como um dos fatores responsáveis por resultados obtidos no Ceará.
Essa estratégia pode ganhar ainda mais importância no segundo mandato.
Um governo estadual não opera isoladamente. O alinhamento político com Brasília tende a facilitar a interlocução com ministérios, a continuidade de programas federais e o acesso a recursos.
Para Elmano, isso pode significar mais capacidade de investimento sem aumento proporcional da arrecadação estadual — e, politicamente, a possibilidade de associar parte das entregas à parceria com o governo federal.
O inverso também é verdadeiro. Um eventual desencontro político poderia dificultar a liberação de recursos discricionários, atrasar convênios e emendas e produzir divergências de agenda, sobretudo em segurança pública.
A relação com Lula, portanto, não será apenas uma questão de afinidade política. Será também uma variável de gestão.
Uma aliança ampla, com uma cobrança igualmente ampla
Elmano chega ao segundo mandato com uma vantagem que poucos governadores conseguem reunir: uma ampla coalizão política.
Sua coligação reuniu PSB, PDT, Podemos, Mobiliza, Republicanos, MDB, Federação Renovação Solidária — formada por PRD e Solidariedade —, Federação PSOL-Rede e Federação Brasil da Esperança, composta por PT, PCdoB e PV.
A amplitude da aliança amplia a margem de governabilidade e reduz, em tese, o risco de isolamento político.
Mas uma coalizão dessa dimensão também produz expectativas. Cada partido aliado representa interesses, demandas e espaços a serem acomodados no governo.
A força política de Elmano, portanto, será uma vantagem desde que consiga ser convertida em capacidade de execução.
A eleição acabou. A cobrança começa agora
A campanha de Elmano foi construída sobre três pilares: os resultados atribuídos ao governo em áreas como educação e geração de empregos, a promessa de reforçar a segurança e o compromisso de interiorizar a saúde.
Lula foi parte importante dessa narrativa. A oposição, por sua vez, tentou transformar a segurança no ponto de ruptura entre o discurso oficial e a realidade percebida pelo eleitor.
As urnas deram a Elmano mais quatro anos.
Mas a reeleição não encerra esse debate. Ao contrário, muda sua natureza.
No primeiro mandato, o governador pôde apresentar resultados e promessas como parte de uma trajetória de governo. No segundo, terá menos espaço para justificar o que não foi entregue.
A partir de 2027, a pergunta deixa de ser se Elmano conseguirá vencer a eleição e passa a ser outra: se terá capacidade de entregar aquilo que prometeu para vencer.
Segurança será a prova mais imediata. Saúde medirá a capacidade de ampliar serviços. Educação testará a ambição de universalizar o ensino integral. E Brasília poderá definir quanto espaço financeiro o governo terá para executar essa agenda.
Elmano ganhou tempo. O que fará com esses quatro anos é que definirá o legado de seu governo.
