
Desenvolvida no campus de Camocim em parceria com cooperativa de reciclagem, inovação resultou em pedido de patente e pode gerar renda para catadores
Garrafas de vidro descartadas em praias e bares do litoral Norte cearense podem ganhar um novo destino longe do descarte irregular. Uma pesquisa desenvolvida no campus de Camocim do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará (IFCE) transformou resíduos de vidro pós-consumo em revestimentos decorativos utilizados na construção civil, unindo sustentabilidade, inovação tecnológica e geração de renda para cooperativas de reciclagem.
A tecnologia, que resultou em um pedido de patente depositado pelo IFCE junto ao Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI), foi desenvolvida pela professora Izabela Cristiane de Lima Silva, do curso de Tecnologia em Gestão Ambiental, em parceria com o estudante Carlos Eduardo dos Santos da Costa e com a Cooperativa de Reciclagem do Baixo Acaraú (Coopbravo), que atua na coleta e destinação de resíduos sólidos.
O revestimento utiliza vidro triturado em diferentes granulometrias e cores para produzir texturas semelhantes às de materiais considerados nobres na arquitetura contemporânea, como granilite, granatto e grafiato. O diferencial está no fato de o vidro funcionar como elemento principal da composição, preservando o brilho natural do material sem necessidade de pigmentos artificiais.
Um problema ambiental sem solução viável
Embora o vidro seja 100% reciclável, a reciclagem desse material ainda enfrenta obstáculos econômicos e logísticos no Brasil. O peso elevado, o custo do transporte e o baixo valor pago pelo material dificultam sua reinserção na cadeia produtiva. Segundo a professora Izabela Lima, o problema é ainda mais grave em regiões afastadas dos grandes centros industriais. “O valor agregado ao vidro como resíduo não cobre o custo para entregar esse material novamente na cadeia produtiva”, explica.
No litoral norte do Ceará, onde há intenso fluxo turístico e grande consumo de bebidas em garrafas long neck, o descarte inadequado do vidro tornou-se um problema ambiental recorrente. A ausência de aterros sanitários em parte dos municípios da região agrava ainda mais o cenário. Foi nesse contexto que surgiu a parceria entre o IFCE e a Coopbravo. “A cooperativa nos apresentou uma demanda real. Eles já realizavam a destinação do vidro, mas precisavam encontrar alternativas para agregar valor a esse material”, relata a pesquisadora.
A Coopbravo já trabalhava com uma máquina trituradora de vidro, recebida por meio de uma parceria entre o Instituto Camboa e a Ambev. O equipamento transforma garrafas descartadas em granalha de vidro, um material que já vinha sendo utilizado em aplicações como tijolos ecológicos e filtros de piscina. Apesar desse potencial, a cooperativa buscava alternativas capazes de agregar ainda mais valor ao resíduo e ampliar as oportunidades de geração de renda para os catadores.
Foi nesse contexto que surgiu a parceria com o IFCE. Ao conhecer a demanda da cooperativa e as características da granalha produzida na região, a equipe de pesquisa passou a investigar novas possibilidades de aplicação do material. A inspiração veio da própria construção civil. Segundo a professora Izabela Lima, que também é engenheira ambiental, a vivência com projetos e obras contribuiu para que ela identificasse o potencial da granalha de vidro como alternativa sustentável para revestimentos decorativos.
“Existe um revestimento de alto padrão feito a partir da trituração de rochas naturais. Então surgiu o insight de testar a granalha de vidro para produzir um revestimento semelhante”, conta a pesquisadora. Os primeiros testes foram realizados de forma artesanal, no quintal da casa da professora, com apoio voluntário do estudante Carlos Eduardo e do pintor Fabiano Dourado, que auxiliou na aplicação prática da tecnologia.
Patente busca proteger cooperativas
Um dos aspectos centrais da pesquisa é o modelo de proteção intelectual adotado pelo grupo. De acordo com Izabela Lima, a patente não foi pensada para concentrar ganhos em grandes indústrias, mas para fortalecer cooperativas e associações de catadores. “Nossa intenção não foi comercializar a patente com a indústria, mas proteger as cooperativas e associações”, afirma.
A proposta inclui não apenas o revestimento final, mas também todo o processo produtivo: coleta, separação por cor, trituração, armazenamento e aplicação do material. A ideia é permitir que cooperativas possam futuramente comercializar produtos de maior valor agregado, deixando de atuar apenas como fornecedoras de resíduos.
Fundada em 2021, a Coopbravo se tornou referência no Ceará pela destinação de vidro reciclável. Atualmente, a cooperativa conta com 18 cooperados e atende mais de 12 mil pessoas em ações de coleta seletiva e educação ambiental em municípios da região.
Segundo José Ronaldo de Sousa Rocha, presidente e cofundador da cooperativa, o vidro sempre foi um dos materiais mais difíceis de trabalhar economicamente. “Uma tonelada de vidro varia entre R$ 20 e R$ 50, mas o custo da destinação ultrapassa R$ 120. A conta não fecha”, relata. Antes da parceria, os custos da destinação do vidro precisavam ser compensados com recursos obtidos na comercialização de outros materiais recicláveis, como alumínio.
Para a cooperativa, a tecnologia desenvolvida pelo IFCE representa uma possibilidade concreta de transformar um passivo ambiental em fonte de renda e valorização do trabalho dos catadores. “O vidro tem um potencial absurdo, mas ainda é pouco explorado no Brasil”, afirma Ronaldo.
É fundamental que as instituições de ensino se aproximem de cooperativas como a Coopbravo para desenvolver tecnologias locais, soluções que nascem de problemas reais do nosso território. Muitas vezes se busca lá fora uma resposta que, no fim, não se encaixa na nossa realidade. O IFCE teve a sensibilidade de enxergar e acreditar no potencial que já existia aqui, e de caminhar lado a lado com a gente nessa construção
“Essa tecnologia reúne o tripé da sustentabilidade. Ela gera benefícios econômicos para cooperativas e associações que trabalham com resíduos e, muitas vezes, têm uma margem de retorno muito pequena; cria oportunidades para profissionais da construção civil, como pintores artesanais; e traz ganhos ambientais importantes, ao reduzir a emissão de gases de efeito estufa associada ao transporte do vidro e à extração de matérias-primas minerais. Além disso, ajuda a enfrentar um problema ambiental presente em muitas cidades, que é o descarte inadequado do vidro. É uma solução que pode ser replicada em cooperativas e associações de todo o Brasil e que ainda entrega um produto esteticamente atrativo, durável e de baixa manutenção”, destaca Izabela Lima.
A pesquisadora também destaca os impactos sobre a saúde e a segurança dos trabalhadores envolvidos na cadeia da reciclagem. Segundo ela, a transformação dos cacos em granalha reduz significativamente os riscos de cortes durante o manuseio, o armazenamento e o transporte do material, tornando o processo mais seguro para cooperados e catadores.
Pesquisa aplicada e formação acadêmica
O estudante Carlos Eduardo dos Santos da Costa, de 21 anos, participou do desenvolvimento da patente e transformou a experiência em tema de Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) no curso de Tecnologia em Gestão Ambiental. A pesquisa do estudante propõe um modelo regionalizado de gestão do vidro envolvendo municípios como Camocim, Barroquinha, Chaval, Granja, Martinópole e Jijoca de Jericoacoara.
“Queremos transformar um resíduo sem valor em algo que gere renda extra aos catadores”, resume. Carlos Eduardo também destacou o aprendizado proporcionado pela experiência de participar de um processo de patenteamento. “A gente precisava descobrir o que já existia e o que realmente era novo para podermos pedir a patente”, explica.
Os resultados iniciais da pesquisa foram apresentados no Congresso Nacional de Gestão Ambiental, em Recife, em 2025. Para o estudante, o principal diferencial do projeto foi perceber a aplicação prática da pesquisa científica no território. “A gente resolve um problema ambiental, de saúde pública e ainda gera valor para os catadores”, afirma.
Além da redução de resíduos e da diminuição da emissão de gases de efeito estufa associados ao transporte do vidro para outros estados, a tecnologia também contribui para reduzir a extração de recursos minerais utilizados em revestimentos convencionais. Dependendo da aplicação, o vidro reciclado pode substituir parcial ou integralmente os agregados naturais empregados nesses materiais.
Para a pesquisadora, o projeto demonstra como ciência, educação pública e conexão com o território podem gerar soluções concretas para desafios ambientais contemporâneos. “Encontrar caminhos alternativos para conviver melhor com o planeta é o que nos move”, conclui.
Tecnologia pode ser replicada em outras regiões
Segundo a equipe, a proposta foi pensada para ser simples, acessível e replicável em outras cooperativas/ associações do país. Após a divulgação inicial da tecnologia, grupos de diferentes regiões passaram a procurar o IFCE em busca de informações sobre o processo.
Os próximos passos da pesquisa envolvem a realização de estudos voltados à definição de modelos sustentáveis de produção, comercialização e expansão do portfólio de produtos derivados da tecnologia desenvolvida. A equipe também pretende avaliar novas aplicações para o vidro reciclado na construção civil e no artesanato, ampliando as possibilidades de aproveitamento do material e agregando ainda mais valor ao resíduo.
A proposta prevê ainda ações de capacitação, assistência técnica e articulação para captação de recursos e investimentos, considerando os desafios operacionais, técnicos e financeiros enfrentados por associações e cooperativas de reciclagem. O objetivo é criar condições para que a tecnologia possa ser replicada e escalada em diferentes regiões do país, ampliando os benefícios ambientais, sociais e econômicos associados à reciclagem do vidro pós-consumo.
*IFCE
